Em plena quarta-feira à tarde, o homem se encaminhava em direção ao hospital. Era um dia chuvoso, péssimo para sair de casa, mas a ocasião exigia um sacrifício, tratava-se de um velho amigo. Após muito andar na chuva, passa pela entrada e se dirige à recepção, na qual obtém o número do quarto.

Entra no elevador e chega no 1º andar. Depois de uma leve caminhada pelos corredores, encontra o cômodo 118. Lá estava, deitado inerte na cama, o seu melhor amigo. Há 15 anos sofrendo de uma grave doença, resistindo dentro do possível para se manter vivo, porém a cada dia mais fraco. O rapaz ansiava para entrar no pequeno recinto mas, enquanto se encaminhava à porta, um vulto branco apareceu em sua frente.

— Posso ajudar, amigo?
— Ah, perdão, você é o médico responsável por ele, né?
— Sim, Doutor Agathyrno, muito prazer.
— Prazer então, doutor, trata-se de um amigo de longa data, bem próximo aliás. Já estou há um bom tempo sem vê-lo e, com as atuais condições de saúde dele, senti a necessidade de fazer uma visita. Também queria saber como anda a sua situação, se tem boas perspectivas de melhora e tal.
— Hum, entendo. Olha, a situação do seu amigo é delicada. Assim, sou o médico dele há anos, e eu já vinha avisando há um tempo que o consumo excessivo de charuto lhe traria graves problemas e não deu outra: câncer de pulmão. Foi se agravando com o passar dos anos, até que em 2008 conseguimos interromper o avanço da enfermidade por um tempo. Em 2011, então, ele demonstrou uma recuperação impressionante, dando sinais de que, aos poucos, voltaria aos seus melhores dias. Pois é, ledo engano, em 2014 piorou de vez, até chegarmos a esse estado atual. Fora as crises em 2008, 2013 e 2015, com desenvolvimento de crescentes tumores.
— Doutor… Eu estou muito preocupado com ele, de verdade, não merece passar por isso.
— Estamos fazendo o possível, mas, se continuar assim, infelizmente, o falecimento pode se tornar uma realidade cada vez mais próxima.
— Eu…
— Quer falar com ele, né?
— Sim, por favor, preciso desse momento a sós com o meu amigo.
— Vou providenciar. Você pode ficar lá dentro por 10 minutos.

Após alguns segundos, tomadas as devidas providências, o homem é liberado para entrar no quarto. Ao adentrar o recinto, encontra seu amigo deitado inconsciente na cama e se aproxima dele. Puxa uma cadeira e fica bem próximo, encarando o velho companheiro por cinco minutos. Teve um momento que não teve como, desandou a chorar. Lágrimas sinceras, de temor pelo futuro de seu parceiro de tantos anos. Enxugadas as lágrimas, decidiu falar com a figura outrora repleta de vivacidade.

— Ei, amigão, como você tá? Cara… Olha o que aconteceu com você. Cansaram de te avisar sobre o quanto o charuto poderia te fazer mal, mas você não ouvia ninguém, só aqueles maus elementos de sempre. Isso te destruiu, tu virou apenas uma sombra do seu passado glorioso. Torço muito por você, ‘cê não tem noção do quanto já fomos felizes juntos. Já comemoramos várias vezes, assim como nos lamentamos, faz parte, mas é isso que ajudou a construir uma relação tão coesa quanto a nossa. Meu primeiro amigo, que eu levei comigo desde o berço, e você sabe, uma amizade dessas não é para qualquer um. Um irmão para mim, e olha, aprendi muito contigo. Com você, aprendi a não ficar calado perante injustiças, lutando por igualdade e pela diversidade, me opondo a toda e qualquer discriminação, seja social, seja racial. Lembra aquela época que nem casa você tinha? Vivia de favores em residências de conhecidos, mas isso não te intimidou, você foi lá e construiu um lindo lar com o seu próprio suor, que está lá, firme e forte até hoje, te esperando. Você, meu amigo, me mostrou que uma situação adversa, por pior que seja, pode ser reversível. É, você sempre teve um poder de reação incrível, e isso só reforça o quanto eu acredito em você. Está vindo 2017, ano de mudanças, quem sabe você possa se livrar desse câncer de vez? Estou na torcida, aliás, torço todos os dias por isso, pois sei que é plenamente possível você retornar aos seus dias de glória. Sempre ao teu lado, até o fim.

Cumprimentado o médico, se retirou do hospital e atravessou a rua. “Cyro! Volta pra casa, a gente tá te esperando”. Vinha do céu, gritos direto do paraíso. É, estava na hora de Cyro Aranha voltar. Antes de retornar ao seu descanso eterno, deu uma última olhada para o hospital, com um leve sorrisinho no canto da boca.

— Melhoras, Vasco da Gama.

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