Enquanto continuamos na busca por nosso sonhado pentacampeonato brasileiro, vamos relembrar um pouco da nosso primeiro e importantíssimo título nacional. Em 1974, o Vasco se tornou o primeiro carioca a conquistar o Campeonato Brasileiro (se contar com Taça Brasil e Torneio Roberto Gomes Pedrosa, reconhecidos também como Brasileirões em 2010, Botafogo e Fluminense já haviam ganho). Além disso foi o primeiro mandante a obter um público de mais de 100 mil pessoas em uma decisão.

A quarta edição do Campeonato Brasileiro começou 9 dias depois da anterior, pois o Campeonato de 1973 só se encerrou no início do ano seguinte. Boa parte dos times disputou o campeonato sem seus principais jogadores, que estavam a serviço da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo (naquele ano o Brasileirão não foi interrompido para a disputa do Mundial). Como o Vasco não teve nenhum jogador convocado, pudemos contar com força máxima.Tínhamos um time com poucos talentos individuais, mas com força de conjunto e espírito de luta.

Destacavam-se o ótimo goleiro argentino Edgardo Andrada, o capitão Alcir, e os jovens talentos Zanata, Luís Carlos e Roberto Dinamite. Antes do campeonato, jornalistas consideravam como a principal arma do time Amarildo, campeão mundial com a seleção em 1962, de volta ao Brasil após um longo período no futebol italiano, mas que ainda não havia se firmado com a camisa do Vasco, realizando pouquíssimos jogos desde que foi contratado, em 1973. No comando técnico, Mário Travaglini, que já estava no Vasco por 2 anos, fato pouco comum já naquela época.

Na primeira fase, os 40 times participantes foram divididos em 2 grupos. O Vasco ficou no grupo A. Foi uma campanha bem regular do clube de São Januário, com 7 vitórias e 8 empates em 19 jogos, mas o suficiente para a classificação para a próxima fase, terminando na sétima colocação do grupo. Na vitória por 1×0 contra o Avaí, faltando ainda 3 rodadas, o Vasco já havia garantido a classificação, com gol de falta de Roberto Dinamite. Roberto, aliás, que já se destacava na primeira fase, sendo o autor de 11 gols (ele terminaria a competição como artilheiro, com 16 gols).

Para a segunda fase, o regulamento previa que se classificassem os 10 melhores classificados de cada grupo, mais os dois de melhor campanha abaixo da décima colocação, e mais os dois times com a maior média de público além desses 22, o que classificou Fluminense e Nacional do Amazonas, décimo sexto e décimo sétimo de seus grupos, respectivamente.

O Vasco caiu no Grupo 2, do Atlético-MG, líder de seu grupo na primeira fase, Corinthians, Vitória, Operário e Nacional. Somente o primeiro garantia vaga na outra etapa. Em uma fase onde a defesa foi perfeita (nenhum gol sofrido em 5 jogos), conseguimos o primeiro lugar do grupo, depois de 2 empates e 3 vitórias, entre elas, uma determinante sobre o Galo no Mineirão. Na última rodada dessa fase, o Vasco empatou com o Vitória de Mário Sérgio, único que ainda possuía chances, garantindo o seu passaporte para a fase final.

O quadrangular final contava, além do Vasco, com o Santos de Pelé e Edu, o Internacional de Carpegiani e Falcão, e o Cruzeiro de Nelinho e Piazza. Todos já contariam com suas principais estrelas que retornaram da Copa do Mundo e, com isso, possuíam um certo favoritismo sobre um Vasco bastante esforçado, mas sem nenhuma estrela individual. Na época, muitos já diziam que o Vasco poderia se dar por satisfeito, pois “chegou até onde conseguiria chegar”. Mas não era o que pensava o técnico Mário Travaglini:

-Estaria mentindo se dissesse que o Vasco é melhor que o Santos, o Cruzeiro ou o Inter. Acho mesmo que esses times possuem mais experiência que o nosso, embora o Santos venha fazendo um trabalho de renovação. Mas como o Vasco vem jogando muito bem, demonstrando uma reunião perfeita e, mais do que isso, uma determinação de vitória impressionante, acho que temos chances de ganhar. As mesmas chances de Santos, Cruzeiro e Inter. Numa final de apenas quatro equipes, com cada uma fazendo apenas três jogos, quem vence o primeiro dá um grande passo, decisivo. Por isso nosso grande objetivo agora é vencer o Santos.

Na primeira partida do quadrangular, num Maracanã com 97 mil pagantes, o Vasco levou sua torcida ao delírio ao vencer o Santos, com Pelé e tudo, por 2×1. Abrimos o placar no primeiro tempo, com Luís Carlos, após cruzamento de Zanata. Mas no início do segundo tempo, o Rei do Futebol empatou cobrando falta, fazendo aquele que seria seu último gol oficial no “Maior do Mundo”. Quando empate já parecia definitivo, aos 43 do segundo tempo, escanteio para o Vasco que a bola sobra para Roberto definir a importantíssima vitória.

Para a partida seguinte, o Vasco foi a Belo Horizonte enfrentar o Cruzeiro, que havia empatado sua primeira partida com o Internacional. Em um jogo de fraco nível técnico, o Cruzeiro abriu o placar, após dominar o primeiro tempo. Aos 13 do segundo tempo, o lateral Alfinete empatou após falta cobrada por Zanata. O fim do jogo foi marcado por uma das cenas mais importantes do campeonato: após uma reclamação de um suposto pênalti não marcado em Palhinha, dirigentes do Cruzeiro invadiram o gramado para agredir o juiz Sebastião Rufino.

No jogo seguinte, 118 mil pessoas lotaram o Maracanã para a partida contra o Internacional, na qual uma vitória renderia o título ao time de São Januário. E tudo se encaminhava para esse desfecho. Com 22 minutos já ganhávamos por 2×0, com Roberto abrindo o placar aos 4 e Zanata aumentando a vantagem. Porém, mesmo mantendo essa vantagem a maior parte do jogo, o Inter diminuiu aos 20 do segundo tempo com Lula e empatou ao 32 da mesma etapa com Escurinho. Ficava adiado o sonho do título para o jogo desempate com o Cruzeiro, que acabara por ficar com a mesma pontuação que o Vasco.

O jogo final deveria ser disputado na casa da equipe de melhor campanha, no caso o Cruzeiro. Porém, a invasão de campo e tentativa de agressão ao árbitro, ocorridas na última partida do Mineirão contra o próprio Vasco, inverteram o mando de campo, como mandava o regulamento.

Mesmo com toda a reclamação mineira, a partida ocorreu no dia 1o. de agosto, em um Maracanã com praticamente 120 mil pessoas. O Cruzeiro ainda conseguiu levar a campo um de seus principais jogadores, Wilson Piazza, que havia sido suspenso após 3 cartões amarelos.

O Cruzeiro, que possuía um plantel de maior qualidade técnica, iniciou a partida procurando dominar o jogo. Mas o Vasco apresentava contra-ataques muito perigosos. O Cruzeiro teve a bola mais tempo dominada, mas foi o Vasco que ameaçou com maior intensidade. Enquanto Andrada a rigor não foi empenhado, o goleiro Vítor teve que fazer uma série de difíceis defesas.

E aos 14 minutos, o Vasco conseguiu o seu primeiro gol, na cobrança de uma falta, por Zanata, na direita. A bola veio para Fidélis, que chutou com força para o meio da área. Na confusão, a bola estourou em Darci Meneses e sobrou para Ademir, que bateu de bico, sem chances para Vítor.

O Vasco estava melhor em campo, apesar do nervosismo de alguns jogadores, especialmente Ademir, que acabou levando um cartão amarelo, aos 20 minutos.

Aos 27 minutos, o primeiro lance polêmico: Jorginho Carvoeiro marcou o que seria o segundo gol vascaíno, mas foi anulado por um suposto impedimento. Apesar disso, o primeiro tempo terminou com a superioridade vascaína, o que levantou a torcida mas com ressalvas, devido ao empate cedido no jogo anterior contra o Inter.

No segundo tempo, como era de ser, o Cruzeiro voltou botando forte pressão. E conseguiu seu gol aos 19 minutos, após belo chute de fora da área de Nelinho. O empate levaria à prorrogação e não ao título do Cruzeiro, como alguns mineiros alegam até hoje.

Mas o Vasco não estava disposto a deixar o título escapar mais uma vez. E com mais de 100 mil vozes empurrando, aos 36 do segundo tempo, o capitão Alcir lançou Jorginho Carvoeiro, que trombou com Vítor, mas a bola sobrou livre para o ponta direita, que bateu a meia altura. Era o gol do título, a festa da torcida vascaína.

Antes do fim de jogo, o Cruzeiro ainda conseguiria chegar ao gol de empate, com Zé Carlos de cabeça, mas Armando Marques anulou em outra decisão polêmica. Mas não tira o mérito do Vasco, que mostrou que foi o verdadeiro merecedor da vitória.

Foi um título que enche de orgulho à torcida vascaína e deveria servir de exemplo sempre, especialmente à times recentes da nossa história, que devido a limitações técnicas, já entram derrotados em campo, se esquecendo da camisa que vestem. Um time desacreditado, considerado inferior a maioria de seus adversários, superou todos eles e botou o Vasco no lugar onde sempre deve estar: o mais alto do pódio!

Time base: Andrada, Fidélis (Paulo César), Miguel (Marcelo), Moisés (Joel Santana) e Alfinete; Alcir Portella, Zanata e Ademir (Fred, Peres); Jorginho Carvoeiro (Jaílson), Roberto e Luiz Carlos (Amarildo). Técnico: Mário Travaglini

Artilheiros do Vasco:
Roberto – 16 gols
Luiz Carlos – 4 gols
Jaílson – 3 gols
Fred e Zanata – 2 gols
Peres, Gaúcho, Alfinete, Ademir, Jorginho e Marião (Operário, contra) – 1 gol

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