O Campeonato Sul-americano de Campeões de 1948 possui um lugar especial no tão vasto acervo de glórias vascaíno. Este título representa os primórdios do que hoje chamamos de Libertadores e sua conquista confirma a natureza precursora de nosso clube se sagrando o primeiro campeão de uma competição em tais moldes. Participaram do grandioso campeonato realizado no Chile equipes como o River Plate da Argentina, de Di Stéfano e Miguel Angel Labruna, craques da seleção argentina (até então a melhor seleção do continente); Nacional do Uruguai, do artilheiro Atilio Garcia; e Colo Colo do Chile, que compôs uma verdadeira seleção chilena incluindo em seu plantel de forma emprestada os melhores atletas de seu país.

O Expresso da Vitória, campeão carioca de forma invicta em 1947, chegava como um dos menos badalados, não era visto como real ameaça pela imprensa local, mal sabiam o que lhes aguardava… Cada um dos guerreiros daquele glorioso time reservavam sua parcela da maior demonstração de futebol apreciada em terras sul-americanas. A campanha avassaladora iniciou com um resultado não muito expressivo diante do modesto El Litoral da Bolívia, 2×1 com dois gols de Lelé, fato que fortalecia a postura da imprensa anfitriã. No segundo jogo já enfrentaríamos um dos maiores favoritos, o Nacional. Favoritismo pulverizado, o Expresso da Vitória passou pelo time uruguaio sem tomar conhecimento, incríveis 4 a 1 que deixavam boquiabertos pela primeira vez os que até então desacreditavam o time Cruz-maltino, a única nota triste deste jogo foi a grave lesão de nosso ídolo e histórico artilheiro Ademir. Queixada(assim chamado pelas suntuosas medidas de seu queixo) quebrou o pé e ficou de fora do resto da competição. Se enganam os que cogitaram um possível desânimo da equipe após o triste ocorrido, o acontecimento foi superado e Ademir Menezes foi devidamente homenageado com elásticos 4 a 0 sobre o Municipal de Lima.

Em estágio já tão avançado de competição o Vasco já havia superado o status de desconhecido e se tornava de fato um assombroso rival frente às pretensões argentinas e uruguaias, o próprio River chegou a tropeçar levando 3 a 0 do Nacional. Diante de sucessivos êxitos os adversários se perguntavam como parar essa locomotiva tão sedenta por vitórias, a solução encontrada pelo Emelec de Guaiaquil foi uma ferrenha retranca. Por um momento parecia dar certo mas como de costume cederam aos pés do Gigante da Colina, ao fim do segundo tempo com um gol de Ismael estava selada a vitória magra. Era vez então dos donos da casa, para a seleção chilena do Colo-Colo era uma obrigação vencer em seu território. O jogo foi marcado pelo equilíbrio no primeiro tempo, mal iniciada a contagem do segundo tempo, 1 a 0 Colo-Colo, o time vascaíno não se abateu e buscou o empate. Friaça aos 22 minutos, o empate foi mais do que suficiente. A equipe vascaína terminava em primeiro lugar assim tendo a vantagem do empate contra o segundo colocado, na grande final.

River Plate, vulgo La Maquina jogaria a vida contra o de início desconhecido Vasco da Gama. Um fato inusitado na escalação do Gigante foi a troca feita pelo técnico Flávio Costa, sai Rafanelli(back central argentino), entra o jovem Wilson. Nosso comandante temia por um possível nervosismo por parte de Rafanelli devido seu conhecimento de “La Máquina”. O jogo foi marcado pelas entradas duras de Chico que levava muito a sério a rivalidade com os “hermanos”. O ponto alto do primeiro tempo coube a um dos tantos milagres realizados na partida por Barbosa. O arqueiro vascaíno defendeu cobrança de pênalti de Labruna. No segundo tempo veio a ironia do destino, Wilson que até então fazia bom trabalho marcando ninguém menos que Di Stéfano torceu o pé e deu lugar a Rafanelli. O xerife argentino da colina histórica entendeu o recado e manteve o padrão de Wilson. Aos 28 minutos da segunda etapa o pavio aceso acabou, Chico e Mendez partiram pra violência após uma reclamação do brasileiro por ter tido um gol anulado, ambos foram expulsos.

O jogo terminava com o 0 a 0 e cumprindo o regulamento se encaminhavam os 5 minutos de prorrogação, 5 minutos estes que não foram suficientes para nenhuma ação do River que comprometesse o tão merecido título vascaíno. Vasco da Gama campeão sul-americano! Mais uma vez o seleto elenco cravava seu nome na história. Jamais serão esquecidos os homens que proporcionaram período tão vitorioso ao nosso amado clube. Os nomes de Barbosa, Augusto, Wilson, Rafanelli, Chico, Friaça, Lelé, Jorge, Barqueta, Moacir, Ademir, Eli, Danilo, Ismael, Djalma, Maneca, Dimas e Nestor ecoarão para sempre nas apaixonadas discussões vascaínas. Que para sempre os que vestirem o manto Vascaíno almejem ser o que tal equipe representou. Somente em 97 a Confederação Sul-americana de futebol reconheceu o tão fantástico título como de igual peso a Taça Libertadores da América. O fato foi tão comemorado que 49 anos depois proporcionou o reencontro destas verdadeiras lendas ao solo sagrado de São Januário.

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