Após muita espera, enfim chegou o Dia Internacional da Mulher. Um dia emblemático, que todo 8 de março celebra as lutas por direitos das mulheres trabalhadoras. Nesse contexto, nada mais justo do que contar a história daquela que desafiou o machista mundo do futebol. Trata-se de Dulce Rosalina.

Há casos em que já se nasce vinculado a algum time, e com Dulce não foi diferente pois, desde o berço, a primeira dama das arquibancadas já trajava a Cruz de Malta. Com dois anos, já era sócia do Gigante da Colina, aprofundando o seu amor a cada ano graças ao pai português que, assim como o Cruzmaltino, pregava igualdade e combatia o preconceito racial. Um vascaíno convicto.

Encantada com os ideais do clube de São Januário, Dulce se tornou frequentadora assídua dos jogos vascaínos tendo, a exemplo de seu time do coração, se tornado a primeira mulher a assumir a presidência de uma torcida de futebol, aos 22 anos, em 1956. Posteriormente casou-se com o então jogador de futebol, Ponce León com quem teve os seus dois filhos.

Já presidente da TOV (Torcida Organizada do Vasco), decidiu deixar de trabalhar para não se privar da maior alegria de sua vida: o Vasco. Dedicando boa parte de sua energia à sua paixão, marcou seu nome ao introduzir nas arquibancadas cariocas a bateria, o concurso de torcida e o papel picado, verdadeiras inovações na época.

“Quando eu era criança, o meu pai, botafoguense fanático, só deixava eu ir aos jogos do Vasco, na época com 11 anos e os meus irmãos com 7 e 6, desde que nós ficássemos sentados perto da Dulce Rosalina. Porque ele confiava nela ali, nós três estaríamos seguros. Era um tempo em que ela, apesar de mulher, se impunha e tinha o respeito dos demais chefes de torcida da época. A Dulce era uma pessoa muito especial, que protegia todos nós, e se precisasse até brigava, saía na mão mesmo, era mulher de fibra, vascaína de verdade, sinto muitas saudades dela, muitas mesmo.”, disse Antônio Valle, vascaíno de 65 anos.

Sua influência transcendia as arquibancadas, tanto que era amiga de jogadores como Vavá e Bellini, que compareciam a festas de aniversário em sua casa. Certa vez, foi barrada junto a seu filho Poncinho na entrada do Maracanã por levar papel picado, sendo presa em seguida ao chamar o policial de flamenguista. Sabendo do ocorrido, os jogadores do Vasco se recusaram a entrar em campo até a nossa torcedora-símbolo ser liberada. Dito e feito, foi solta pouco tempo depois, já estando na arquibancada para apoiar o clube.

Atuante, viajava Brasil afora pelo time da colina. Devido à sua entrega ao Almirante, venceu o concurso de melhor torcedor do Brasil, realizado pela prestigiada Revista do Esporte, no início da década de 60, e doou o prêmio ao cruzmaltino. A dedicação ao Vasco ultrapassava barreiras, e se engana quem pensa que acabou por aí.

Em 1968, numa caravana para São Paulo, um dos 30 ônibus no qual Dulce fazia parte sofreu um grave acidente. Ninguém morreu no episódio, mas ela ficou afastada das arquibancadas por dois anos devido a uma fratura na clavícula e no braço, além do afundamento do crânio. Por incrível que pareça, quis ir ao Maracanã logo após se recuperar, segundo relatos do seu próprio filho, Poncinho. Também optou por não fazer a cirurgia, pois as cicatrizes, segundo ela, eram provas de sua dedicação à Cruz de Malta.

Em 1977, por causa de seu apoio à candidatura de Medrado Dias à presidência do Vasco, foi obrigada a desvincular-se da TOV, fundando na sequência a torcida RenoVascão. Após acompanhar o Vasco efusivamente norte-sul deste país por tantos anos, ficou afastada dos estádios devido a problemas de vista ao longo dos anos 90.

Nossa eterna vascaína faleceu no dia 19 de janeiro de 2004, comovendo a nação cruzmaltina e permanecendo em sua memória até hoje. Homenagens não faltaram, tanto que, por decreto da prefeitura do Rio de Janeiro, mudaram o nome da antiga rua do Reservatório para Dulce Rosalina, próxima à sua casa, e de todos os vascaínos, São Januário.

Dulce Rosalina foi uma figura icônica, não só para os cruzmaltinos, mas também para todas as mulheres, configurando um exemplo de pioneirismo em sua luta por espaço e voz dentro do futebol. Certamente faz muita falta, descanse em paz guerreira.

Saudações vascaínas!

Comentários

comentários