Era 1998. O centenário de um clube é uma data importante, e seu peso é ainda maior quando se trata de um gigante. O Vasco havia conquistado uma vaga na Libertadores da América após ter sido Tri-Campeão Brasileiro no ano anterior. O jogador mais importante daquela temporada, Edmundo, fora transferido para o futebol europeu, e seu companheiro no ataque, Evair, para a Lusa. Mas a diretoria se movimentou e trouxe reforços importantes, como Donizete e Luizão. Estava claro que os cartolas vascaínos fariam de tudo para repetir o grande ano que foi 1997, honrando o centenário do maior clube do Brasil, e em seu esforço, ajudaram o Gigante da Colina a ter o maior ano de sua história.

O início de uma caminhada emocionante

A temporada já havia começado bem. O Vasco conquistara o seu vigésimo-primeiro título estadual, e o técnico Antônio Lopes contava com um elenco forte e capaz de brigar por títulos em qualquer competição que disputasse. Nomes como Carlos Germano, Mauro Galvão, Felipe, Juninho, Odvan, Luisinho, Luizão, Donizete, Nasa, Ramon… guerreiros que vestiram o manto com orgulho e trouxeram imensas alegrias à torcida cruzmaltina. Mas como todos os vascaínos sabem, “se não é sofrido, não é Vasco”. O time passou da primeira fase da Libertadores por pouco. Apesar de ter mantido a maior parte do elenco de 97, o clube ainda era inexperiente na competição. Foram duas vitórias, dois empates e duas derrotas. Ficou em segundo lugar no grupo, atrás do Grêmio.

Depois, vieram as oitavas de final. O Vasco iria enfrentar o Cruzeiro, que defendia o seu título. O primeiro jogo, em São Januário, não foi fácil. O time mineiro começou ganhando, mas os cruzmaltinos não se abateram, e Luizão empatou o placar. Aos gritos de “O Vasco é o time da virada, o Vasco é o time do amor”, Donizete, o Pantera, fez o segundo gol. Tendo vencido por 2×1, o time só precisava de um empate para se classificar para as quartas. Mas o jogo de volta no Mineirão foi duro. O Cruzeiro dominou praticamente todos os 90 minutos. Era defesa contra-ataque. Um empate por 0x0 pode não parecer um resultado satisfatório, mas foi comemorado quase como se fosse um título, principalmente sendo contra o último campeão da competição.

Finalmente o Vasco estava nas quartas de final, tendo como adversário o tricolor gaúcho. Empate de 1×1 no jogo de ida, e uma vitória por 1×0 no de volta. Apesar de ter sido um placar magro, o time de São Januário não teve grandes sustos. Mas a maior provação ainda estava por vir.

O eterno gol de Juninho no Monumental de Nuñez

O campeonato foi interrompido por causa da Copa do Mundo, e depois de a Seleção Brasileira ter sido eliminada pela França, o Gigante da Colina era a única oportunidade que o Brasil tinha de ser bem representado em competições internacionais. O primeiro jogo das semi-finais foi em casa, contra River Plate. O Vasco preferiu se garantir na defesa e abrir vantagem no contra-ataque, o que rendeu alguns sustos que fariam qualquer torcedor desenvolver algum tipo de problema cardíaco.Felizmente, o time conseguiu a vitória com gol de Donizete, e foi para o estádio Monumental contando com uma vantagem. Mas os vascaínos começaram perdendo o jogo na casa do seu adversário, e apesar de jogarem de igual pra igual, os hermanos faziam um jogo duro e não aceitariam perder. Mas, aos 37 do segundo tempo, o Vasco recebeu uma falta a seu favor. Faltando oito minutos para o fim da partida, Antônio Lopes, o Delegado, tirou do banco de reservas um jovem jogador que era especialista em cobranças de falta: Juninho Pernambucano. A responsabilidade era grande, afinal, ele entrava no lugar do artilheiro Luizão, e era maior ainda sabendo que a esperança de mais de vinte milhões de torcedores estava naqueles pés. E todos eles cruzaram os dedos, fecharam os olhos, murmuraram preces, se agarraram aos objetos e pessoas mais próximas, ou fizeram rápidas promessas naqueles segundos de tensão. Depois, veio o silêncio. Juninho se preparava para a cobrança. Então, o grito que estava entalado na garganta encontrou voz e se espalhou em todos os lugares. GOL! O Vasco empatava o jogo e garantia sua classificação para a final. Ninguém mais poderia tirar aquele título.

A Final

O Almirante já havia passado por todas as suas provações. Era o favorito ao título, tendo eliminado os três últimos campeões da competição. Só tivera duas derrotas até então, provando seu valor em campo. E já estava mais do que incomodado em ter o rival Flamengo como o único carioca campeão da Libertadores. Já estava na hora daquilo acabar. Ninguém tiraria aquela taça. O adversário era o Barcelona de Guayaquil, que fizera uma campanha surpreendente e eliminou o Cerro Porteño. No jogo de ida, na Colina Histórica, Donizete marcou o primeiro gol logo nos primeiros dez minutos. Luizão fez o segundo também na primeira etapa. A vontade de ser campeão era tamanha que a diferença entre os dois times era imensa, e esperava-se que houvesse até mais gols no segundo tempo. E no jogo de volta, os dois atacantes titulares novamente deixaram seus respectivos gols nos primeiros quarenta e cinco minutos. Faltando onze minutos para o fim da partida, o Barcelona diminuiu a diferença do placar, mas nada que preocupasse os vascaínos. Aquela taça já tinha dono, e finalmente foi erguida aos céus pelo capitão Mauro Galvão. 50 anos depois, eles repetiam o feito do Expresso da Vitória. Aquele foi o dia em que o Gigante conquistou a América… mais uma vez.

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