Desde 1997 o Gigante da Colina já vinha colecionando títulos e encantando o Brasil, as Américas e o mundo com um futebol vistoso. Elencos repletos de craques justificavam tais resultados. A Mercosul de 2000 tem um sabor especial por ter sido um título com a marca registrada do Vasco. O time da virada aplicou a eternamente lembrada virada do século sobre o Palmeiras.

Na grande final dentro do Palestra, o Gigante da Colina consagrou esse título cruzmaltino como uma das maiores reviravoltas da história do futebol mundial. O elenco responsável por tal proeza era formado por peças como Helton, Nasa, Jorginho, Jorginho Paulista, Fábio, Henrique, Odvan, Mauro Galvão, Júnior Baiano, Juninho Paulista, Romário, Euller, Clebson, Viola, Paulo Miranda, Pedrinho, Juninho Pernambucano e Felipe. A natureza formadora de grandes jogadores aliada a experiência de craques consagrados como Romário, o grande destaque desse time, resultaram na fórmula perfeita para mais uma grande conquista da história cruzmaltina.

 O início da trajetória de sucesso

O início de campanha não demonstrava o quão longe poderíamos ir e mais uma vez o time vascaíno começava sorrateiro e mostraria sua face campeã somente ao longo da competição. A classificação em segundo lugar só veio após uma vitória por 2 a 0 em São Januário sobre o Atlético-MG em conjunto de uma incrível combinação de resultados que já provava que o título vascaíno estava predestinado a acontecer.

A campanha vitoriosa, porém nada fácil, se iniciou com uma virada do Peñarol sobre nosso time onde perdemos por 4 a 3 após estarmos ganhando de 2 a 0 dentro do estádio Centenário. Os gols foram marcados por Romário, em sobra de chute na trave de Viola, e mais duas vezes o próprio Viola de cabeça marcou a nosso favor.

No segundo jogo, ganhamos de 3 a 0 do San Lorenzo. Duas vezes Romário e uma vez Fabiano Eller. Nota especial ao primeiro gol de Romário construído numa jogada repleta de toques de primeira finalizada com um chute forte do Baixinho de fora da área, sem deixar a bola cair e para o gol de Fabiano Eller após incrível jogada individual de Viola que só rolou para deixar o companheiro na situação perfeita.

No dia 31 de Agosto de 2000 jogamos contra o Atlético-MG no Mineirão e perdemos por 2 a 0. Quando o Peñarol nos visitou empatamos por 1 a 1 com mais uma vez gol de Romário, o inconfundível camisa 11, após passe de Viola. O baixinho driblou o goleiro e empurrou pro fundo do gol com vontade. Em seguida visitamos o San Lorenzo e ganhamos por 2 a 0. Chutaço de Juninho Pernambucano de fora da área e Romário em bela jogada individual dentro da área marcaram os gols decisivos a favor do clube brasileiro.

O último e decisivo jogo da fase de grupos foi vencido em cima do Atlético-MG com gols de Romário, que aproveitou falha da zaga atleticana, e Juninho Paulista, que aproveitou um rebote após chute na trave de Viola.

Palmeiras x Vasco na final da Mercosul 2000

Palmeiras x Vasco na final da Mercosul 2000

Quartas de Final

A campanha marcada por emoção não podia ficar sem uma disputa por pênaltis. Logo na primeira fase do mata-mata, o Rosário Central provocou as penalidades máximas após ter vencido por 1 a 0 em sua casa. Placar feito anteriormente pelo nosso Gigante em terras brasileiras com gol de Juninho Paulista em chute forte no ângulo de fora da área.

As penalidades vascaínas foram todas convertidas com um time repleto de craques sendo frio e decisivo. O placar da disputa de pênaltis foi 5 a 4 com Juninho Pernambucano, Juninho Paulista, Viola, Jorginho Paulista e Romário sendo os nossos cobradores. Será que pênalti é realmente loteria, amigos?

Semifinal

Uma das maiores provas da força desse elenco vascaíno que entrou para história aconteceu nessa fase. O elenco do River Plate era visto como um dos mais fortes da América do Sul e o time argentino tinha em seu plantel jogadores como Aimar, Ortega e Saviola. Todos sob o comando de Américo Gallego. O que aconteceu no Monumental Nuñez naquela noite foi uma aula de futebol por parte do Gigante da Colina onde tudo dava certo. O futebol vascaíno funcionava de forma mágica.

A rapidez e habilidade de Juninho Paulista, a maestria e precisão de Juninho Pernambucano, o talento de Pedrinho e a frieza aliada ao faro de gol do mestre da grande área Romário mostraram o real potencial daquele time e também ressaltou que a soberba e catimba dos argentinos não eram páreos ao talento brasileiro formado na Colina Histórica. Desta forma, os quatro gols cruzmaltinos saíram naturalmente de jogadas protagonizadas pelas principais estrelas daquele elenco espetacular. Mesmo totalmente desnorteado, o time argentino ainda conseguiu marcar seu gol de honra com Saviola.

No jogo de volta não foi necessário muito esforço e a vitória simples com um gol de Juninho Paulista após passe de Euller jogou um balde de água fria nos ânimos argentinos e selou a eliminação do River. O Vasco da Gama estava na finalíssima.

Romário após marcar o gol decisivo da final

Romário após marcar o gol decisivo da final


Os primeiros jogos contra o Palmeiras

O Vascão chegava a fase final tendo como seu adversário o Palmeiras. Segundo o regulamento, o título seria definido em 2 ou 3 jogos. A vitória valia três pontos e o empate um ponto pra cada time. O time que chegasse primeiro aos quatro pontos seria o grande campeão e, no caso de nenhum dos dois times alcançar os quatro pontos nos dois primeiros jogos, um terceiro jogo seria realizado no mesmo estádio da segunda partida da final.

O primeiro jogo desta complexa fase foi realizado no Rio de Janeiro. O apoio da torcida fazia da nossa casa o mais poderoso caldeirão. O primeiro gol saiu de jogada ensaiada com um chute venenoso de Juninho Pernambucano que matou quaisquer chances do goleiro Sérgio chegar na bola. O segundo gol também veio com uma jogada protagonizada pelo Reizinho onde o mesmo partiu pela esquerda, passou para Pedrinho que levantou na medida para Romário dominar e estufar as redes Os três pontos conquistados em casa faziam com que o empate já fosse suficiente para a conquista do título no segundo jogo. O que aguardava o time vascaíno, entretanto, foi bem diferente do esperado.

Quis o destino que houvesse um terceiro jogo, uma grande final decisiva. A vitória de 1 a 0 do Palmeiras em São Paulo igualava as chances com o Vasco decidir o título da Mercosul no que seria uma partida histórica, um jogo marcado eternamente na memória vascaína.

Antes da grande final, contudo, o Vasco tinha um outro importante compromisso: a semifinal do Brasileirão contra o Cruzeiro. O time de São Januário empatou em 2 a 2 dentro de casa e ao fim da partida um abraço do então técnico Oswaldo de Oliveira em Felipão, técnico do Cruzeiro, não foi visto com bons olhos pelo presidente Eurico Miranda. A relação entre o técnico vascaíno e o mandatário já vinha estremecida e a gota d’água veio com uma divergência quanto ao horário de reapresentação do time. Enquanto o folclórico presidente exigia que o time se reapresentasse pela manhã, o técnico vascaíno insistiu pela mudança para o período da tarde. A troca de horário foi interpretada como uma afronta por Eurico Miranda que optou por demitir Oswaldo de Oliveira às vésperas da grande final. O novo comandante escolhido foi Joel Santana.

Romário e Juninho Paulista após o gol que decretou o título vascaíno

Romário e Juninho Paulista após o gol que decretou o título vascaíno


A Virada do Século

A tão aguardada final chegou e aparentemente o clima tenso nos bastidores de São Januário estava afetando dentro de campo. O time durante o primeiro tempo atuou de forma irreconhecível: Arce aos 36′ abriu o placar de pênalti após mão na bola de Júnior Baiano e logo em seguida Magrão ampliou a vantagem para 2 a 0 após rebote em bela defesa de Helton. Aos 45′, foi a vez de Tuta marcar o seu e fazer 3 a 0. Com o fim da primeira etapa da partida, a torcida do Palmeiras já comemorava o título com gritos de “É Campeão!” e os jogadores vascaínos se dirigiam ao vestiário.

Entretanto, o time voltou para o segundo tempo com outra postura e o que se viu foi um outro Vasco, um Vasco vencedor, um Vasco guerreiro, o Vasco que havia se superado tantas outras vezes durante o campeonato retornava e mais uma vez faria história. Surgia em campo o inesquecível time da virada.Joel mexeu no time tirando Nasa e colocando Viola. O atacante entrou incendiando a partida e infernizando a defesa adversária sendo fundamental para a virada.

Aos 13′ do segundo tempo, a reação começava a tomar forma com Juninho Paulista sendo lançado em profundidade na cara do gol e o zagueiro Fernando derrubando o camisa 23 na área. Era pênalti para o clube carioca! Com Juninho ainda no chão dentro da área, Romário já pegava a bola nas mãos e se dirigia para a marca da cal. Sem titubear, o camisa 11 colocou a bola no fundo das redes com uma comemoração contida em uma corrida séria em direção ao centro do campo com a bola debaixo do braço representando o foco não só de Romário, mas de todo o time no propósito de conquistar aquele título.

Aos 23′ novamente houve outro pênalti sobre Juninho Paulista quando o arisco meio campista partiu em velocidade na jogada individual e recebeu um carrinho criminoso dentro da área. Mais uma vez Romário era o dono da bola. Romário bate no mesmo canto e comemora da mesma forma contida. Cada vez a ameaça vascaína se tornava mais forte. Os torcedores palmeirenses não conseguiam acreditar que o título tão próximo iria escapar. A torcida vascaína, sempre fiel a cada gol, ficava mais esperançosa. Nem mesmo a expulsão de Junior Baiano seria o bastante para impedir o Vasco da Gama de ser campeão.

Romário e Juninho Paulista em cena histórica na Virada do Século

Romário e Juninho Paulista em cena histórica na Virada do Século

Aos 40′ Clebson levantava na área e, numa rara furada de Romário, a bola se ofereceu para Juninho Paulista encher o pé para o gol. Assim como o marcador, que comemorava vibrando e batendo no peito, a imensa torcida bem feliz também explode. No estádio, em casa, nos bares, nas ruas, em todos os lugares naquele momento havia algum vascaíno emocionado sem acreditar no que estava acontecendo diante dos seus olhos. A alegria era tanta que o empate parecia o próprio título. O semblante dos jogadores palmeirenses e o silêncio de sua torcida mostravam que o psicológico estava destruído e com um rival rendido, a virada era questão de tempo para o time sedento que buscava o resultado.

Aos 48′ do segundo tempo, após jogada iniciada pela esquerda e bate rebate dentro da grande área, a bola sobrou para os pés de nada mais, nada menos que o capitão, o craque, o artilheiro do campeonato empurrar para o fundo da rede. Mais uma vez Romário fazia história com os pés. Era o inimaginável 4 a 3. Nesse momento quem secava já tinha sumido e o palmeirense mais mudo do que já estava ali permaneceu sem reação. E o vascaíno? Esse já podia gritar com convicção e sem medo de ser feliz que era CAMPEÃO!

A corrida de Romário e Juninho Paulista abraçados comemorando e pedindo silêncio passa como um filme até hoje na memória dos privilegiados que acompanharam a partida naquela gloriosa noite. Em vídeos, sob o olhar dos mais jovens é possível ver o fascínio diante de tal façanha. É como se, de algum modo, todo torcedor vascaíno, sendo este jovem ou velho, vivesse aquele momento como se fosse agora. O Vasco era campeão da Mercosul em 2000 e, pra variar, o maior da América e eternamente o maior do Brasil.

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