O Vasco sempre foi uma fábrica de artilheiros. Roberto Dinamite, Edmundo, Romário, Ademir Menezes, enfim, exemplos não faltam, numa tradição que perdura há tempos, ainda que enfraquecida nos últimos anos. Em meio há tantos nomes, um que marcou história no clube, principalmente na década de 50, é praticamente esquecido pela torcida: Onofre Anacleto de Souza, mais conhecido como Sabará. O atacante viria a criar um laço fortíssimo com o Almirante.

Filho de José de Souza e Benedita Balbina Souza, nasceu na cidade de Atibaia (SP), em 18 de junho de 1931, rapidamente se destacando nas peladas locais com seus dribles ousados. A pele do menino brilhava tanto que um pequeno grupo de torcedores o incentivava gritando: “Vai jabuticaba Sabará”, uma referência ao fruto abundante e facilmente encontrado naquelas redondezas. O apelido tanto pegou que poucas pessoas o conheciam pelo nome desde então.

Conforme reportagem publicada pelo Jornal Mundo Esportivo, em 13 de outubro de 1953, Sabará trabalhava como Servente de Pedreiro ao lado do amigo Clóvis Lemos de Paula, que mais tarde fez muito sucesso jogando pelo Fluminense. Clóvis e Sabará eram funcionários da empresa Laloni & Bastos até serem despedidos pelo Mestre de Obras devido ao barulho provocado pelas batucadas em pleno horário de trabalho. Apesar de ter perdido o emprego, ganhou destaque no futebol de várzea da região, principalmente quando defendeu o Souza Futebol Clube. Em 1947, foi descoberto pelos olheiros da Ponte Preta, que o encaminharam aos quadros amadores do clube. Entre 1951 e 1952, ganhou destaque atuando nos extremos do ataque da Macaca, o que provocou o pronto interesse do Club de Regatas Vasco da Gama em 1952. Daí em diante sua carreira alavancou de vez.

Sabará nunca foi exímio goleador, afinal, sequer era centroavante, mas sim um ponta-direita nato. Na época, tal posição formava grandes prodígios em solo nacional, mas ainda assim o incansável camisa 7 se consolidou como um dos melhores do país. Além de atacar e chutar como poucos, defendia com a mesma eficiência, se entregando em campo toda partida. Atuou pelo Cruzmaltino entre 1952 e 1964, num total de 576 partidas, sendo querido pela torcida e desenvolvendo grande identificação pelo Gigante da Colina. Trata-se do 3º atleta que mais atuou vestindo a Cruz de Malta, além de ser o 8º maior artilheiro da história do clube, com 165 gols. Vale ressaltar, também foi considerado o melhor atleta vascaíno da temporada em 1961.

O Vasco em 1956. Em pé: Carlos Alberto, Paulinho, Bellini, Laerte, Orlando e Coronel. Agachados: Sabará, Vavá, Livinho, Walter e Pinga. Crédito: revista Esporte Ilustrado.

Suas atuações pelo Vasco lhe alçaram à Seleção Brasileira, pela qual atuou em 10 partidas e marcou um gol, frente à Seleção Uruguaia na Copa Oswaldo Cruz de 1955. Ademais, participou das conquistas de 3 Cariocas (1952, 1956 e 1958), do Torneio Rio-São Paulo de 1958, do Troféu Teresa Herrera de 1957 e do Torneio Internacional de Paris de mesmo ano. Nesse último, Sabará marcou um dos gols da épica vitória sobre o Real Madrid na final, por 4 a 3.

                                        Sabará na Seleção Brasileira. Crédito: netvasco.com.br.

Além de dedicado e oportunista, Sabará ficou marcado pelo peculiar costume de levantar a gola da camisa pra cima, fora que, eventualmente, parecia viver no mundo da lua. Em uma partida do Torneio Rio-São Paulo, Sabará quase foi expulso de campo ao virar de costas para o árbitro Armando Marques, que insistentemente o chamava aos berros: “Seu Onofre, seu Onofre Anacleto… Venha cá agora!”. Vai lá que é você mesmo, disseram os companheiros ao sempre desatento Sabará. Mas Sabará não era o único, já que poucos eram os precavidos ao costume de Armando de chamar os jogadores pelo nome.

                                      Crédito: revista do Esporte número 185 – 22 de setembro de 1962.

Triste que, após tantos anos honrando a Cruz de Malta, tenha sido vítima da reformulação em 1965, sendo dispensado junto a Laerte, seu compatriota. Transferiu-se para a Portuguesa carioca e, magoado pela forma como saiu de seu antigo clube, ansiou pelo confronto com o mesmo, que ocorreu no Carioca de mesmo ano, com vitória lusitana por 2 a 1. Após rápida passagem pelo Desportivo Itália da Venezuela decidiu encerrar a sua carreira. Depois do futebol, Sabará trabalhou como Representante Comercial e também no comércio, com uma lanchonete em sociedade com o jogador Índio do Flamengo. Morreu esquecido no dia 6 de agosto de 1991, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, onde era proprietário de um bar. Apesar da saída amarga, Sabará se mantém como um subestimado ídolo cruzmaltino, esquecido pelas novas gerações. No mais, um alegre e arisco paulista de coração vascaíno.

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