Alguns dizem que o ano só começa depois do Carnaval, o que não é de todo mentira, ainda mais no Rio de Janeiro, berço dos festejos das escolas de samba, atraindo turistas do mundo inteiro anualmente. E, claro, os clubes cariocas não poderiam ficar de fora de toda essa festa, principalmente um certo cruzmaltino da Zona Norte. Desde meados do século XX, o Club de Regatas Vasco da Gama já dava indícios de sua tradição carnavalesca.

Tudo começou em 1935, num amistoso entre Vasco e Selecionado da Saúde (bairro situado na zona central da cidade, onde aliás o clube foi fundado em 1898) em São Januário, o qual terminou com vitória vascaína por 2 a 1. O que diferenciou esta singela partida das demais foi o fato dela ter sido uma “preliminar” de um desfile de escolas de samba, que tinha como objetivo apresentar ao público os sambas-enredo (então chamados de “marchas”) do desfile oficial do Carnaval do ano seguinte. As maiores agremiações da época, Mangueira, Portela e Unidos da Tijuca, participaram do evento. A união entre futebol e samba deu sorte para Vasco e Unidos da Tijuca, campeões da temporada de 1936.

Se engana quem pensa que essa união acabou por aí, pois, em meados do anos 40, a Colina Histórica mais uma vez foi fundamental para o desfile das escolas de samba na Cidade Maravilhosa. Isso se deveu à demolição da Praça Onze, a futura Avenida Presidente Vargas, que costumeiramente acolhia o evento, fora a conturbada opinião popular, que, junto às autoridades, estava dividida entre a conveniência ou não de realizar a festa, já que o Brasil havia entrado na II Guerra Mundial em 1942.

Com isso, São Januário, o maior estádio do Rio de Janeiro na época, dividiu com a Avenida Rio Branco o status de sede dos desfiles em duas oportunidades: a primeira em 24 janeiro de 1943, num desfile beneficente e não-competitivo organizado pela primeira-dama Darcy Vargas; e a segunda no desfile “oficial” do Carnaval de 1945, vencido pela Portela e que ficou marcado por um assassinato ocorrido dentro do estádio, durante uma briga entre integrantes de escolas rivais. A Avenida Rio Branco sediou as apresentações “oficiais” de 1943 e 1944.

Em 1998, que veio o ápice dessa grande parceria. A Unidos da Tijuca decidiu homenagear o centenário do Gigante da Colina com o enredo “De Gama a Vasco, a Epopéia da Tijuca”. No desfile, a escola, além de relembrar o navegador homônimo Vasco da Gama e a trajetória de títulos do clube de São Januário, também destacou a origem operária do clube e a sua luta contra o racismo. A gratidão é terna, tanto que o refrão do samba “Vamos vibrar meu povão (é gol, é gol) / A rede vai balançar, vai balançar / Sou Vasco da Gama, meu bem / Campeão de terra e mar” até hoje é repetido nos estádios, em mais uma bela canção da torcida vascaína. Infelizmente, na Avenida o clube não teve o mesmo êxito dos gramados, sendo rebaixado para o Grupo de Acesso, o que é curioso, tendo em vista que este foi considerado um dos melhores desfiles do ano.

De qualquer forma, temos em mãos mais uma prova da inegável tradição do Almirante, navegando em esferas que transcendem o futebol. Isso sem falar de São Januário, que mais uma vez deu mostras de se tratar de um patrimônio histórico-cultural do Rio de Janeiro. O vascaíno não só festeja na arquibancada, mas também nos blocos de rua, e cá entre nós: tomara que essa relação não acabe tão cedo.

Saudações vascaínas!

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