Veste o colarinho branco, sapatos negros e reluzentes, óculos escuros e a costumeira maleta preta. Estava pronto para a grande reunião. Entra no carro, brilhando ao sol carioca e, dentro do veículo, não pensa duas vezes e dá o comando ao chofer, já com tudo programado. Após tempo considerável de trajeto, enfim chegou ao seu destino: a Colina Histórica. Pelos vidros do veículo, avista o lendário estádio. Sai do automóvel, ajeita a gravata e vai em direção à entrada principal.

O executivo se dirige à recepção, na qual é recebido de forma atenciosa por uma senhora, que logo diz:
— Boa tarde! Em que posso ajudar?
— Boa tarde, eu sou empresário, estava com uma reunião marcada com o presidente pra hoje.
— Ah sim, o Doutor tinha me avisado sobre isso, pode me dar o seu nome por favor?
— Carlos Vilabella dos Anjos.
— Ok, aguarde só um momentinho, já já te indico a sala de reuniões.
— Tudo bem, eu espero.

Passados cinco minutos, a recepcionista libera o agente e o encaminha até a sala do presidente. Já na porta, dá toques ritmados nesta em busca de uma resposta. “Entra”, ouve sonoramente Carlos, que o faz. Assim que entra no cômodo, avista sentado confortavelmente na cadeira, com seu inconfundível charuto, o Rei Sol da Colina.

— Como vai meu empresário preferido?
— Vou muito bem, Doutor, obrigado.
— Aceita um charuto?
— Agradeço a oferta, mas não fumo.
— Certo, bem, chega de enrolação, trouxe o material?
— Aham, tô com a maleta aqui.
— Ok, senta aqui a minha frente então pra nós começarmos a reunião. Mas antes, queria te lembrar em adotar aquela prática sigilosa que havíamos acordado antes. — Doutor temia possíveis escutas embutidas nos agentes, por mais confiáveis que fossem.

Já em seus devidos lugares, Carlos põe a maleta em cima da mesa e a abre, revelando, além de algumas papeladas, uma vultosa quantia de dinheiro.

— Bem, Doutor, como você sabe, o JH já vem jogando aqui no clube há um ano, e eu vim cumprir a minha parte do acordo. Nós havíamos combinado no contrato que ele seria titular absoluto do time, mesmo que apresente certas… Deficiências técnicas, por assim dizer, em vários atributos. O técnico tem colaborado com os termos previstos no papel até agora, não sacando ele do time por mais que sofra rejeição da torcida, não faça gols, dê assistências, enfim. Aqui estão as bonificações que havíamos acordado em eu ter de te entregar por respeitar o contrato e, claro, para premiar a recente renovação do meu atacante. — Na sequência, entrega uma quantia de R$500 mil ao presidente.
— Opa, agradeço, você ficou de discutir o contrato de outros atletas hoje também, né?
— Claro, claro, queria falar com você sobre outro jogador meu, o lateral baiano.
— Qual o problema com ele?
— Então, Doutor, nesse caso você acabou burlando os termos do contrato. Não sei se você lembra, mas havíamos combinado que o baiano estaria em condições similares às do JH, com titularidade assegurada mesmo com baixo rendimento em campo e concorrentes mais qualificados para a posição. No entanto, o técnico recentemente barrou ele para botar o Pokémon depois de tanto tempo e…
— Peraí, Carlinhos, assim também não dá, cara! Olha, jogar com menos um até vai, mas com menos dois é complicado, teve uma hora que não teve jeito, o menino já tá todo queimado com a torcida. Não cruza direito, marca mal, a melhor jogada dele é cobrança de lateral, não tem condições!
— Veja bem, Doutor, sei que é difícil segurar uma figura dessas no time titular, mas devo te lembrar que você não tá cumprindo com os termos do meu contrato, e isso é complicado, temos boa relação e não tô a fim de abrir um processo contra você, gostaria de resolver isso de forma amigável.
— Ok, vou bater um papo com o treinador, verei o que posso fazer por você. Acredito que ele não deve tardar a ter chances de novo.
— Que bom que chegamos a um acordo. Bem, temos que falar sobre o Talismã também.
— Ah, ficamos de renovar o contrato dele, né?
— Sim, atualmente vai até 31 de dezembro de 2017, mas acredito que seja de comum acordo renovar até 2020. Você havia me prometido uma ampliação no salário dele e mais oportunidades na equipe também, se não me engano.
— Sim, ele terá um acréscimo de R$100 mil em seus vencimentos, mas isso deveríamos discutir com ele depois.
— Concordo. Nesse caso, seria bom já encaminharmos a renovação do FG também. Assim, ele tava bichado e nenhum clube queria ele, mas felizmente pude contar com você nessas horas. Mesmo tendo atuado uma vez de titular, ele pôde servir com louvor como vitrine do nosso moderno Centro de Reabilitação. O gerente científico também teve participação decisiva no marketing feito em cima do FG, por isso queria lhe comunicar que já depositei R$ 100 mil na conta dele.
— Sim, sim, realmente um trabalho muito bem feito, pena que ele não deve atuar até o fim do ano nas suas melhores condições físicas, mas 2017 tá aí pra isso. Dois anos a mais de contrato é um número razoável pra você?
— Com certeza. Ah, Doutor, já adiantando para o ano que vem, quando a janela abrir, tenho alguns jogadores interessados em atuar no clube.
— Hum, precisamos de atacantes e volantes, você tem alguns bons para me oferecer?
— Olha, pensei em fazer um contrato de dois anos com o Vanderson. Não sei se você conhece, mas ele é artilheiro do Olaria, tem feito um bocado de gols ultimamente, bom atacante.
— Interessante, podemos discutir isso, mas você tem volantes?
— Lógico, temos o Diéberson, volante raçudo, de muita pegada na marcação, um verdadeiro cão-de-guarda.
— Precisamos disso, ele joga aonde?
— No Duque de Caxias. Mas veja só, tem também o meia-atacante Sabonete, do Friburguense. O nome dele na verdade é Luis Fonseca, mas ele sempre foi um jogador muito rápido e esguio, aí ganhou esse apelido e…
— Está bem, está bem, já entendi, vou colocar esses nomes na minha pauta aqui, depois analiso com calma, mas devo contratar sim.
— Ótimo! Como já é de costume, parte do dinheiro da transação, caso eles acertem com o clube, vai ser realocada para pagar as despesas da sua casa em Angra, e também pra arcar com as despesas do colégio dos seus netos.
— Estou ciente. Bem, Carlos, acho que terminamos por aqui, hoje foi produtivo. Só para constar, queria te desejar boa sorte na sua campanha para vereador.
— Muito obrigado, Doutor, é sempre bom fazer negócios com você.

Apertadas as mãos, o empresário se retira da sala com um sorriso no rosto, deu tudo certo. Doutor? Ah, esse aí tá feliz da vida, afinal, não tem como se lamentar em um ano que o Bacalhau ganhou do Urubu, por mais que esteja há mais de um mês sem vencer. De um jeito ou de outro, o velho segue fumando calmamente o seu charuto.

Comentários

comentários