Nos últimos anos, muito se falou de Eurico Miranda e Roberto Dinamite na torcida vascaína. Nada fora do comum, ainda mais considerando que estes foram os presidentes do Vasco por quase todo o século XXI. Entretanto, em meio a tantos mandatários que comandaram o clube, há um em especial que não é tão conhecido quanto deveria: Cyro Aranha.

Cyro nasceu em 15-04-1901, na cidade de Alegrete, no Rio Grande do Sul. Era irmão de Oswaldo Aranha, o grande estadista e diplomata brasileiro, considerado “cidadão do mundo” pela sua atuação na ONU. Chegou ao Rio de Janeiro em 1918, estudando no Colégio Pio Americano, onde começou a acompanhar o Vasco através das competições de remo que o clube participava, levado pela amizade que havia feito com filhos de portugueses.

Nomeado chefe da polícia do Estado de Santa Catarina, ao retornar ao Rio, exerceu diversas funções e cargos sempre na área do comércio, dentre eles, diretor da associação do comércio do Rio de Janeiro. Casou-se em 1931, com Nair Valverde, sua companheira até o fim da vida. Contudo, foi a sua relação de amor com o Vasco a mais intensa, e a que o eternizou.

Após disputa acirrada em um Vasco da Gama permeado por uma ebulição política, alcançou o cargo máximo da instituição no ano de 1942. Dotado de personalidade forte, mas ao mesmo tempo carismática, conseguiu o que parecia impossível: unir o clube e apaziguar os ânimos, dando início à era mais vitoriosa da instituição, dentro e fora de campo.

Fora de campo, liderou a chamada campanha dos aviões vascaínos junto com outros grandes nomes da época, em que os sócios se cotizaram e adquiriram para depois doar à FAB, dois aviões que seriam usados na luta contra o nazismo na Europa, campanha essa que de tão bem sucedida, gerou recursos que permitiram que construíssemos a sede náutica da Lagoa alguns anos depois. Antes mesmo disso, com influência direta do presidente Cyro, o Vasco também havia doado ao exército brasileiro um periscópio e um binóculo, além de ter promovido partidas beneficentes com o intuito de ajudar no esforço de guerra.

Foi o responsável por tirar do papel o Departamento Infanto Juvenil, ideia que surgiu ainda em 1941, mas que entre 1942 e 1943, anos da primeira presidência de Cyro, pôde finalmente passar a existir, visando não somente formar meros atletas, mas também gerar cidadãos. “Enquanto houver um coração infantil, o Vasco será imortal”, a emblemática frase símbolo do DIJ pode ser vista e ouvida por todos os cantos de São Januário, sempre com o nome de Cyro Aranha como sendo o autor da frase, ainda que a verdadeira autoria pertença a Álvaro do Nascimento.

Mas foi no futebol que o “paredro”, apelido dado a ele por adversários e simpatizantes devido a sua capacidade de liderança, seria eternizado: Foi o grande responsável pela montagem do maior time de todos os tempos, o Expresso da Vitória! Eleito para um segundo mandato (1946-1947), iniciou a construção do fantástico esquadrão para sempre eternizado nos gramados de São Januário. Nomes como Barbosa, Bellini, Danilo, Lelé, Chico, e claro, um dos maiores atacantes da história do clube, Ademir Marques de Menezes.

Já em um terceiro e último mandato como presidente (1952 – 1953), também se fez presente na transição do Expresso até o seu final. Todos aqueles jogadores, escolhidos a dedo pela diretoria composta por Cyro, ficariam marcados para todo o sempre como a maior equipe de futebol da história do Club de Regatas Vasco da Gama. De 1942 a 1953, foram quatro títulos cariocas, um título continental (Campeonato Sul-Americano de Campeões, em 1948), dois Torneios Relâmpago, três Torneios Municipal e um mundialito (Torneio Internacional Rivadávia Corrêa Meier, de 1953).

Em 17-07-1985, após uma vida inteira atuando na política vascaína, Cyro deu um último exemplo de vascainidade em seu leito de morte, fazendo um pedido direto a Eurico Miranda: queria ser enterrado com uma flâmula do Vasco em suas mãos. Semanas depois, durante o velório na Sede Náutica, Eurico, ao perceber a ausência de uma bandeira no lugar, contou com a presteza da Grande Benemérita D. Maria Emília, para buscar um galhardete em São Januário. Pouco depois, com o objeto em mãos, cumpriu, aos prantos, o último desejo do lendário presidente cruz-maltino.

Cyro Aranha não nos trouxe somente conquistas, mas deixou um legado, tornando-o tão imortal quanto a instituição que brilhantemente comandou. É difícil um político alcançar um status de unanimidade, ainda mais num clube de cenário político sempre conturbado como o de São Januário, porém este conseguiu. Hoje, 31 anos após o seu adeus, lhe concedo o meu mais sincero obrigado, por tudo já feito em prol de nosso amado Vasco da Gama. Um homem que foi mais que um presidente, Cyro foi um modelo de vascaíno.

Comentários

comentários