O ano era 1945 e o Vasco do Expresso da Vitória mais uma vez era forte candidato ao título carioca. Ainda em formação, o esquadrão comandado por Ondino Vieira já começava a fazer sucesso em território brasileiro. Após quatro rodadas do Estadual, o Gigante da Colina decidiu reforçar ainda mais o seu já forte elenco. Logo, em agosto do mesmo ano, o Almirante contratou o goleiro Gabriel Rodrigues do Comercial F.C. de São Paulo. Este estreou contra o Bonsucesso, na 5ª rodada do campeonato, tendo atuado em 12 partidas como titular desde então. Com suas defesas, ajudou o clube a conquistar o título invicto, com 13 vitórias e 5 empates em 18 partidas, uma ótima campanha.

Em dezembro, um mês após o término do Campeonato Carioca, Rodrigues estava de férias em Caxambu. Lá, decidiu comprar um “gasparinho”, como eram chamados os bilhetes da Loteria Federal. Além de bom goleiro, Rodrigues tinha muita sorte, pois, para sua surpresa, foi premiado com 200 mil cruzeiros, uma fortuna na época. Sem precisar mais do futebol para viver, o atleta decidiu pendurar as chuteiras e voltar para São Paulo, mesmo com apenas 30 anos.

Mas o futebol, meus caros, é uma caixinha de surpresas. Precisando de um novo arqueiro, o Vasco decidiu apostar em um jovem goleiro também contratado em 1945, porém reserva até aquele momento. Deveras talentoso, havia se transferido do CA Ypiranga de São Paulo ao Almirante depois de três anos se destacando por lá. Em 1946, ganhava a titularidade ninguém menos que Moacir Barbosa Nascimento.

Seguro, elástico e dotado de excelente senso de colocação, Barbosa foi dono da meta vascaína durante 9 anos, até se transferir para o Santa Cruz. Depois de atuar pelo clube pernambucano e pelo Bonsucesso, o velho ídolo retornou à Colina Histórica, onde jogou até 1962, para posteriormente encerrar a carreira pelo Campo Grande-RJ. Em seu currículo, constam seis Campeonatos Cariocas, o Campeonato Sul-Americano de Campeões de 1948 (precursor da atual Copa Libertadores da América), o Torneio Rio-São Paulo de 1958, dentre outras conquistas.

Pela Seleção Brasileira, mais vitórias, com títulos como a Copa Roca de 1945, duas Copas Rio Branco, nos anos de 1947 e 1950, além da Copa América de 1949. Tudo isso esquecido por um lance: o gol de Ghiggia. O que calou 200 mil vozes no Maracanã, aos 34 minutos do segundo tempo daquele 16 de julho de 1950, do Maracanazo.

Segundo o falecido cronista Armando Nogueira, Barbosa foi “certamente, a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Era um goleiro magistral. Fazia milagres, desviando de mão trocada bolas envenenadas. O gol de Ghiggia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo”.

Barbosa foi um dos maiores, senão o maior, goleiros da história do Club de Regatas Vasco da Gama, um ícone do futebol brasileiro, que defendeu a Cruz de Malta com unhas e dentes por mais de 400 partidas. Crucificado pelo Maracanazo, Barbosa carregou um fardo até o fim de seus dias, mas nada que apague o exímio atleta que foi. Não foi só Rodrigues que ganhou na loteria, mas sim o Vasco e o esporte. Convenhamos, que belo prêmio.

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